meus saberes e suas incongruências
Eu acho que estou fazendo tudo certo. Tudo bastante razoável. Fiz o que pude. Ele fez o que pôde. A vida é assim. Amor que vai, amor que vem. Sem idéias pequeno-burguesas de encontrar o porto seguro. Não há segurança. Ninguém te disse que não há segurança quando se fala de amor? E todos os passos possíveis e sensatos e razoáveis foram dados. A conversa olhando no olho que dissipa a raiva e a incompreensão. A tristeza e o pesar da impossibilidade. Mas impossibilidade de que? Ou de quem? Da vida? Das circunstâncias? Minha ou sua? Impossibilidade de um amor intrinsecamente romântico e com pouquíssimas conexões com a vida real.
Uma porta para um universo, um jardim mágico, uma existência antes imaginada, mas não vivida de todo. E no umbral dessa porta, com um pé lá e outro cá. Por não poder aguentar os matices grises, ele lhe dá as costas. Nos dá as costas. E eu não posso entrar lá sozinha.
E me agrada me sentir madura. Eu aceito a impossibilidade. E é tudo civilizado. Eu também dou as costas. E caminho com a cabeça erguida. Eu sei que tudo passa. Eu sei que isso também passará. E já nem me permito mais desabar e me destroçar e me descabelar. Eu sei que tudo passa. E que vai passar. Eu sei que vou ler esse texto e reconhecer como tudo isso foi verdadeiro e dramático e exagerado. E sei que vou também pensar que estou melhor hoje. E vou corroborar minha idéia taoísta de que o caminho é sempre o melhor caminho.
E tudo isso que eu sei me ajuda a estar bem, viva, animada, produtiva. Sim. Há toda uma vida minha antes, durante, depois e apesar disso. Sempre houve e sempre haverá. Há muitas coisas que me fazem feliz e me completam e me alimentam. Há todo um universo de possibilidades. Até há o vislumbre de encontrar um outro amor. Mais maduro ou mais fácil, até mais intenso. Eu sei que há. E seguramente haverá.
E com todos esses saberes que eu tanto prezo, esses que me fazem uma mulher madura e em paz, há as incongruências.
Os pensamentos tóxicos que tomam o corpo.
Um aluguel de um carro conversível com um cartão de crédito roubado e um seqüestro a mão desarmada.
Sua rua cheia de rosas e eu nua no meio.
Frases desconexas e viscerais em suas paredes.
Eu improvisando em um tablado no meio da sua rua. Eu terei composto a letra da soleá que o cantaor gitano se esgoelará.
Ou simplesmente eu, sem nenhum subterfúgio, sem nada espetacular. Eu com minhas lágrimas. Eu com roupas, mas desnuda. Eu com seu nome escrito em todo o meu corpo com letras invisíveis. Eu em silêncio suplicando com o olhar. Eu em silêncio. Eu em silêncio banhada em lágrimas.
Mas eu sei que não farei nada disso.
Eu sei que isso passa e que passará. Talvez antes do que eu imagine.
E meu coração se acelera um pouco, mas nada que se deixe perceber no sorriso amável e civilizado. Que tal? Todo bien. Tudo civilizado e razoável e maduro e sensato. Eu não me ajoelho e me agarro aos seus pés sem deixar que ele siga. Eu continuo a história animada que contava na mesa. Eu rio com amigos. E me divirto. E me agrada me sentir madura e razoável e sensata. Eu sou uma mulher de 32 anos com um filho e uma vida anterior e posterior a tudo isso. Eu sou a Ana Pacheco. E posso ser encantadora. E posso apresentar o meu roteiro com propriedade. E sou profissional, e responsável e íntegra. Eu tenho quinhentos projetos que não cabem em uma vida. Eu tenho muita saúde e muita energia e muita vida pela frente.
E eu olho para a possibilidade incongruente de ser tomada pela loucura, pela insensatez, pelo absoluto arrebato e rio.
Sorrio e escrevo porque sei que isso passa. E passará.
Melhor terminar antes que eu comece a parafrasear o Lulu Santos.